O Eco de 2016
A frase “2026 é o novo 2016” começou a circular, inicialmente vista como apenas mais uma “trend” nas redes sociais. No entanto, ao analisarmos o clima emocional coletivo, a comparação revela um ponto crucial. Não se trata da repetição de fatos, mas sim da marca indelével de uma década marcada por mudanças profundas.
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Em 2016, algo se rompeu, um sentimento de confiança nas instituições, na política tradicional, na imprensa e até na própria ideia de consenso. A eleição de Donald Trump simbolizou essa quebra no cenário global, transformando a política em uma questão de identidade, em vez de debate e ideias.
A Polarização e o Engajamento Emocional
Na clínica, ouvi inúmeras vezes frases como “não falo mais com meu primo, rompemos”. As redes sociais se consolidaram como a principal arena política, com algoritmos que reforçavam comportamentos de confronto, priorizando o engajamento emocional – raiva e inconformidade – em detrimento da qualidade da informação.
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O debate público passou a ser guiado pela reação imediata, perdendo espaço para a reflexão. Mesmo quem não tinha base para argumentar, viralizava com narrativas repetidas. Hoje, argumentar perdeu valor; não se questiona, mas se sustenta a própria versão, mesmo que seja com a fala de outra pessoa.
A Defesa da Identidade
Questões sociais legítimas passaram a ser discutidas na lógica do “nós contra eles”. A política se tornou um marcador de pertencimento, e não apenas uma eleição que separou pessoas. Almoços interrompidos, grupos silenciados, relações atravessadas por desconfiança.
Talvez a decepção não tenha sido apenas com um parente, mas com a percepção de que aquilo revelava algo maior sobre valores, limites e a forma como vemos o mundo. A pergunta sobre colocar política no meio de tudo se repetia, mas o ponto central não era a política em si, mas a mudança no modo como passamos a odiar um irmão, quase como se ele tivesse cometido um crime imperdoável.
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Discordar deixou de ser confronto de ideias e virou recusa da realidade.
A Busca por Vencer
Mesmo quando algo é comprovado cientificamente, a resposta passou a ser “posso discordar”. Não se trata mais de interpretação, mas de negação. Esse movimento não se restringiu à política; pessoas discordaram até da biologia, de dados objetivos, de consensos básicos que antes organizavam a vida em comum.
Quando fatos viram opinião, qualquer conversa virou guerra. Do ponto de vista psicológico, isso é uma defesa identitária: quando a identidade se sente ameaçada, qualquer informação que a contradiga é vivida como um ataque. A outra verdade deixa de ser algo a ser compreendido e passa a ser algo a ser combatido.
As pessoas querem vencer debates, não porque resolva algo, mas porque vencer se tornou uma forma de sustentar a própria identidade. A vitória oferece alívio momentâneo, não elaboração.
Um Reflexo da Evolução
A maturidade emocional é trocar certezas barulhentas por perguntas que não precisam de plateia. Prometo, você vai se surpreender.
