A noite em que Lúcio e Glauber compartilharam o mesmo sofá

O arquiteto era de quase 30 anos mais velho que o cineasta, porém existia uma forte ligação entre eles: o anseio de materializar o Brasil.

30/04/2025 2h13

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(Imagem de reprodução da internet).

Luiz Carlos do Costa e Glauber Rocha, sentados juntos, trocando ideias – algo que ambos faziam com frequência. A fotografia surgiu na tela do computador, proveniente de uma página digitalizada de um jornal antigo. O urbanista que projetou Brasília e o cineasta que utilizou Brasília como cenário de seus filmes mais relevantes se encontraram por acaso no lançamento de Terra Brasilis, álbum de Tom Jobim, em 1980.

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O arquiteto era quase trinta anos mais velho que o cineasta, mas existia uma forte ligação entre eles: o desejo incessante de materializar o Brasil, seja através da arquitetura, seja do cinema. Contrastavam dois temperamentos opostos: um carioca, nascido na França, com gestos controlados e voz branda, quase mística, e um baiano exuberante, que falava com as mãos, com voz grave, como se estivesse sempre no foco do palco.

A fotografia foi publicada na coluna de Perla Sigaud, pseudônimo da jornalista Hildegard Angel, em O Globo (03/05/1980). Lúcio não era homem de festas, muito menos de colunas sociais, mas naquela noite tinha um bom motivo para ir do Leblon a Copacabana, era amigo de Tom Jobim que era amigo de suas filhas, Maria Elisa e Helena. E era o autor, com o arquiteto Gregori Warchavchik, do risco original do célebre Clube dos Marimbas, onde o disco foi lançado. (O projeto foi modificado e desenvolvido pelo arquiteto Paulo Antunes Ribeiro).

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Naqueles dias, Glauber finalizava a montagem de A Idade da Terra. No auge da criação, o clima do cineasta era instável. O contraste de personalidades se acentuou, mas o interesse em renovar o Brasil a partir de suas raízes mais autênticas era compartilhado por ambos. Glauber compreendeu, de forma singular, o significado simbólico da construção da nova capital do Brasil.

Brasília, ele diria pouco depois, é uma “metáfora que não se realiza na história, mas preenche um sentimento de grandeza, a visão do paraíso”. E ainda mais: “Brasília foi a revolução cultural do Brasil. Com sua construção, o Brasil pôde se livrar de seu complexo diante do colonialismo. O despertar político e a consciência do subdesenvolvimento datam da construção de Brasília”.

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Radiante diante da cidade erguida ao longo do horizonte, Glauber afirmava que Brasília era um “palco fantástico no coração do planalto brasileiro”, que a cidade possuía “forte irradiação, luz do Terceiro Mundo, numa metáfora que não se realiza na história, mas preenche um sentimento de grandeza, a visão do paraíso”.

Um paraíso como o que emergeu em A Idade da Terra, intensamente marcado pela realidade das desigualdades sociais, pelo populismo evidente e pela força expressiva dos povos que constituíram o país. Se o Brasil estava destinado ao moderno, também estava destinado a construir Brasília como um destino quase inevitável nessas circunstâncias históricas.

Glauber faleceu um ano e três meses após aquele encontro, em idade jovem, aos 41 anos. Lucio Costa teve uma vida mais longa, até os 96 anos. Restou a foto e tudo o que se pode imaginar a partir dela.

Fonte: Metrópoles

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