Economia

Brasil vai voltar ao top 10 das maiores economias do mundo, mas isso não é tão importante


Brasil vai voltar ao top 10 das maiores economias do mundo, mas isso não é tão importante
(Foto Reprodução da Internet)

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia brasileira está se saindo melhor do que o esperado nos primeiros seis meses de 2023. Por causa disso, é provável que o Brasil esteja novamente entre as 10 maiores economias do mundo ainda esse ano. O FMI prevê que o país vai ultrapassar o Canadá e a Itália, e alcançar o 9º lugar no ranking do PIB nominal. No ano passado, o Brasil ficou em 11º lugar.

Para o FMI, o PIB brasileiro deve ser de US$ 2,13 trilhões em 2023. A entidade estima que o país se mantenha como a 9ª maior economia do mundo em 2024 e, em 2026, assuma a 8ª posição, com um PIB de US$ 2,476 trilhões.

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Os bons resultados dos dois primeiros trimestres deste ano (altas de 1,8% e 0,9%, respectivamente, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE) levaram o FMI a revisar para cima suas estimativas de crescimento da economia brasileira em 2023. Segundo o fundo, o país deve registrar uma expansão de 3,1% do PIB, ante 2,1% da última projeção. Em 2024, a economia do Brasil deve avançar 1,5%.

O PIB não é a melhor medida

Apesar da visão mais positiva do FMI sobre a economia brasileira, especialistas ouvidos pelo Metrópoles afirmam que o ranking do PIB nominal diz pouco a respeito do desenvolvimento de um país e não é o melhor indicador para medir o grau de desenvolvimento ou o crescimento de uma economia.

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O PIB, em linhas gerais, é o valor de todos os bens e serviços finais produzidos em um país em determinado período. No Brasil, o cálculo é feito pelo IBGE, com base em levantamentos do próprio instituto e dados de outras instituições, entre as quais o Banco Central (BC), a Secretaria da Receita Federal e a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O PIB nominal, contudo, não considera fatores como a desigualdade de renda, o bem-estar da população ou o impacto ambiental da produção econômica. O PIB per capita, por sua vez, é calculado a partir da divisão do PIB total pelo número de habitantes. Grosso modo, esse cálculo mede o quanto da riqueza do PIB caberia a cada indivíduo de um país se todos recebessem partes iguais.

“O ranking de PIB nominal não é muito importante. Os economistas geralmente não prestam muita atenção a esses números porque se referem apenas ao tamanho absoluto da economia. Devido à sua grande população e tamanho, o Brasil é um país peculiar. O que realmente importa é o PIB per capita”, explica Samuel Pessôa, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Segundo Pessôa, o PIB nominal tem “alguma importância”, mas apenas “para questões geopolíticas”. “A China, por exemplo, ainda tem um PIB per capita muito menor do que os Estados Unidos. Só que a China é muito grande e tem um peso enorme na economia mundial. Portanto, tem uma importância geopolítica relevante”, exemplifica.

“Se eu quiser medir eficiência produtiva, o melhor indicador é a produtividade do trabalho, ou seja, a produção por hora trabalhada. Já para medir o bem-estar da população, além de considerar indicadores de desigualdade, a melhor medida é o PIB per capita, que é a quantidade de renda, bens e serviços disponíveis para cada cidadão”, explica Pessôa.

O economista Volnei Eyng, presidente da Multiplike, também acredita que o ranking do PIB nominal desenvolvido pelo FMI pode não ser totalmente confiável. Ele analisa que o crescimento do Brasil em 2023 pode ser influenciado por acontecimentos específicos.

“Entre o oitavo e o 12º país no ranking do PIB nominal, os valores são bastante semelhantes. Devemos levar em conta que a referência é o dólar. Este ano, o real se valorizou 6% em relação ao dólar, o que faz uma diferença significativa. No ano passado, o PIB do Brasil cresceu 2,9% e se espera que cresça mais de 3% neste ano, resultando em cerca de 6% de crescimento em dois anos. Em 2023, o setor do agronegócio foi novamente o principal impulsionador, registrando um crescimento de 21% no primeiro trimestre, um índice surpreendente. Todos esses fatores contribuem para o avanço de um ano para o outro.”

Segundo a economista Carla Beni, que leciona em um programa de pós-graduação na FGV, o cálculo do PIB nominal não leva em consideração coisas como o crédito, o consumo das famílias ou o nível de inadimplência. Ela ressalta que existem críticas em relação a como o PIB é calculado, mas ainda assim é uma referência importante. Portanto, é uma notícia positiva e um sinal importante o fato de o PIB do Brasil estar avançando no ranking.

Mas é importante sempre examinarmos cuidadosamente esse dado, levando em consideração também outros fatores. E podemos até usar outros indicadores em conjunto, que mensuram a qualidade de vida da população”, conclui Beni.

O Brasil não está entre os 60 países com o PIB per capita mais alto, mesmo que possa voltar para a lista dos “top 10” com o PIB nominal nos próximos meses. Atualmente, o país está na 66ª posição, com um PIB per capita de US$ 10,4 mil. O país com o maior PIB per capita do mundo é Luxemburgo, com US$ 116,9 mil, seguido pela Suíça, Irlanda e Noruega. Os Estados Unidos, que lideram o PIB nominal, ocupam o quinto lugar do ranking com US$ 63,4 mil.

A situação do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) também não é boa. Neste ano, o país perdeu três posições na lista que possui 191 nações, indo do 84º para o 87º lugar, com um IDH de 0,754.

O IDH varia de zero a 1: quanto mais próximo de 1, melhores são as condições de vida em um país, tendo como referência itens como saúde, educação e renda. Os cinco maiores IDHs do mundo são de Suíça, Noruega, Islândia, Hong Kong e Austrália. Nas Américas, o líder é o Canadá (15º colocado), seguido pelos EUA (21º).

Economia em desaceleração

O FMI não foi o único a mudar suas previsões para o crescimento econômico do Brasil em 2023. Em outubro, a Unctad estimou que o PIB do país seria de 3,3% este ano, mais do que três vezes maior do que a estimativa anterior de 0,9%.

Duas semanas antes, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também havia elevado sua projeção para o Brasil, de 1,7% para 3,2%. O Banco Mundial é outro que mudou seus cálculos e agora espera que o Brasil cresça 2,6% neste ano, ante 1,2% projetado em junho.

Segundo a última edição do Relatório Focus, do BC, que reúne estimativas do mercado financeiro sobre uma série de indicadores econômicos, o PIB do Brasil avançará 2,89% em 2023, antes de desacelerar para 1,5% em 2024 e 1,9% em 2025.

“Este ano, o mercado financeiro terá que reconhecer seus erros. A maioria dos analistas previu um crescimento do PIB abaixo de 1%”, aponta Carla Beni, da FGV. “A economia é baseada em trajetórias e expectativas. Quando há um crescimento mais forte, isso também melhora as expectativas para o próximo ano. Espero que o país não apenas mantenha seu lugar entre as 10 maiores economias do mundo, mas também consiga avançar ainda mais.”

Volnei Eyng, da Multiplike, afirma que as projeções para o PIB, em geral, são “muito conservadoras”. “Em 2022, a projeção para o Brasil era uma alta de 1% e deu 2,9%. Neste ano, as estimativas eram de 0,5% a 1% e vai fechar próximo de 3%”, aposta o economista.

Os analistas afirmam que, embora se esperasse um aumento significativo do PIB em 2023, a desaceleração projetada pelo mercado é um sinal de alerta e precisa ser observada atentamente. Segundo o Monitor do PIB, da FGV, a economia do Brasil teve uma queda de 0,6% em agosto em relação ao mês anterior, após já ter caído 0,3% em julho.

“A economia do país ainda sente os efeitos da política monetária. Tivemos uma taxa Selic que chegou a 13,75% ao ano, o que freou a atividade econômica. A taxa de juros começa a ter uma interferência depois de seis a nove meses. Como o Brasil começou a baixar a Selic apenas em agosto, significa que pelo menos até a metade do ano que vem ainda teremos esse reflexo de um PIB menor”, explica Eyng. A elevação da taxa de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para desaquecer a atividade econômica, além de combater a inflação.

As incertezas em relação ao cumprimento das metas fiscais por parte do governo, principalmente com as declarações recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que dificilmente o país conseguirá zerar o déficit primário em 2024 – como determina o Marco Fiscal aprovado pelo Congresso Nacional –, também contribuem para um cenário menos otimista nos próximos meses.

Essa desaceleração preocupa. O governo prometia cumprir as metas fiscais até 2024, mas agora existe uma dúvida se isso irá acontecer, o que acaba levando a uma redução no Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o economista, nos próximos 12 meses, 25% da dívida pública do Brasil irá vencer. Isso significa que o país terá que levantar muito dinheiro para renovar essa dívida. Quando a meta fiscal não é cumprida, isso assusta o investidor, que exige um retorno maior.


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