Juros Baixos e o Desafio do Crédito Corporativo em 2026
O Banco Central tem buscado reduzir a taxa Selic, com o objetivo de aliviar o custo do crédito para as empresas. A expectativa é que uma queda nos juros diminua o valor das dívidas, beneficiando principalmente as empresas mais endividadas. No entanto, especialistas alertam que o impacto dessa medida pode ser menor do que o esperado.
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Fernando Siqueira, da Eleven Financial, estima que a redução na Selic será de apenas 0,25 ponto percentual na reunião do Copom, que ocorrerá nesta quarta-feira. A taxa Selic começou o ano em 15% e, apesar de se retrair lentamente, ainda se mantém em um patamar elevado.
Adriano Casarotto, da Franklin Templeton Brasil, prevê que a Selic não deve cair abaixo de 13% até o final do ano.
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O Impacto do Longo Período de Juros Altos
O cenário atual é resultado de quase cinco anos de juros elevados. Esse período deixou marcas nas empresas, com o aumento do custo do serviço da dívida. A relação entre a receita gerada pelas empresas e o valor gasto com juros se deteriorou, resultando em um acúmulo de endividamento.
Segundo o gestor Pierre Jadoul, da ARX, muitas empresas estão operando no limite, lutando para sobreviver. “A gente já está entrando no quinto ano de taxa de juros alta. Quem está de pé até agora é praticamente um herói”, afirma Jadoul, descrevendo um ambiente de grande dificuldade para as empresas.
Fragmentação do Mercado e Espreads em Mínimos
O longo período de juros altos também gerou uma fragmentação no mercado de crédito. Empresas com bom rating conseguem acesso fácil ao crédito, enquanto outras, com menor avaliação, lutam para sobreviver. Os spreads, que representam o prêmio pago pelas empresas acima dos títulos públicos, recuaram a níveis históricos, indicando uma grande demanda por esses títulos, mesmo com a deterioração dos balanços das empresas.
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Tiago Velloso, economista do Ibmec, ressalta que a queda dos juros não resolverá os problemas de alavancagem e geração de caixa das empresas. “A queda de juros não corrige problemas de alavancagem ou geração de caixa”, explica Velloso.
Incertezas e a Postura Defensiva dos Gestores
O paradoxo é que os spreads, que devem indicar o risco do investimento, estão em mínimos históricos. Isso ocorre porque investidores buscam renda fixa e aceitam remunerações menores. Episódios recentes envolvendo empresas como Braskem, Pão de Açúcar e Raízen têm contribuído para que os investidores se tornem mais cautelosos. “As pessoas estão bem mais relutantes hoje em aplicar nesses ativos”, comenta Fernando Siqueira.
Diante das incertezas, a Franklin Templeton adotou uma postura defensiva, reduzindo o prazo dos fundos e concentrando investimentos em ativos menos arriscados. “Estamos num processo de redução de risco, não de aumento”, afirma Adriano Casarotto.
Perspectivas e o Papel do Cenário Macroeconômico
O futuro do mercado de crédito depende do ambiente macroeconômico. Se a queda dos juros for acompanhada de crescimento mais estável e inflação controlada, os spreads tendem a recuar. No entanto, se o cenário continuar com volatilidade e pressão inflacionária, o movimento pode ser mais seletivo.
“O investidor vai pra renda fixa, ele empresta dinheiro para as empresas, mas ele só quer saber de emprestar para empresas super triple-A, super defensivas”, descreve Pierre Jadoul. O economista Tiago Velloso ressalta que a queda dos juros não corrige problemas de alavancagem ou geração de caixa.
Um fator adicional que complica o cenário é a atuação do mercado externo, especialmente o preço do petróleo, que pode pressionar a inflação e limitar a capacidade do Banco Central de cortar os juros.
