Marília Soubhia redefine o setor tributário, focando na criatividade e inovação. A profissional, com formação em Direito e Filosofia, lidera a transformação do setor, impulsionada pela IA e diversidade de talentos
É surpreendente quando compartilho que sou formada em Direito e Filosofia, e que, nas horas vagas, me dedico à cerâmica. As pessoas sempre perguntam como essas três áreas se conectam. A resposta reside na transformação que observo no setor tributário: a necessidade de ir além dos números.
Recentemente, um jovem profissional me procurou em busca de orientação sobre automação na área. Minha resposta foi direta: pare de pensar como uma calculadora e comece a pensar como um artista.
O setor tributário evoluiu de uma área de execução para uma de criação. Nos últimos anos, a combinação de automação, inteligência artificial e governança corporativa elevou o padrão de exigência para quem atua nesse campo. A execução mecânica de tarefas repetitivas está sendo substituída por análises complexas, interpretação de cenários e integração com as decisões de negócio.
A criatividade, antes associada apenas a áreas como marketing ou design, tornou-se uma competência indispensável também no tributário.
Ao longo da minha jornada em grandes corporações, sempre fui chamada para criar áreas tributárias do zero ou ressignificá-las. Resignificar, para mim, significa co-criar e reinventar para alcançar um time de alto desempenho. Em uma empresa multinacional que trabalhei, desenvolvi uma estrutura que começou com foco no Brasil e evoluiu para liderar operações em toda a América Latina.
O segredo foi aplicar uma metodologia simples, mas poderosa: “pessoas certas, no lugar certo, fazendo a coisa certa”. Reunir pessoas com formações diversas – advogados, administradores, contadores e economistas, além de profissionais com background de música e design – gerou um ambiente fértil para inovação e colaboração.
Essa diversidade de perspectivas mudou a dinâmica da área. Soluções passaram a nascer do cruzamento de ideias improváveis, e o resultado foi um time mais engajado, produtivo e capaz de propor caminhos tributários criativos e sustentáveis.
Quando analiso um novo negócio, minha primeira pergunta nunca é “qual é a alíquota?”. É “qual é o objetivo?”. Para criar uma estratégia tributária eficiente, é essencial compreender profundamente o que a empresa busca alcançar, sempre aliado às regras de compliance e governança corporativa.
Como na cerâmica, cada peça é única. De acordo com pesquisas de consultorias financeiras a que tive acesso, metade dos times fiscais estima gastar quase um terço da jornada em tarefas de baixo valor, como extração ou transformação de dados, enquanto mais da metade do esforço total ainda é consumido por rotinas operacionais.
Mas isso não significa o fim do profissional da área, é o início de um novo papel. A inteligência artificial abre espaço para que o profissional de tax se torne um tradutor estratégico entre o negócio e a legislação. É ele quem conecta decisões fiscais à performance corporativa, interpreta tendências regulatórias e comunica complexidades técnicas de forma que executivos tomem decisões mais seguras.
Eu não vejo a inteligência artificial como uma ameaça, e sim como uma oportunidade. Acredito que a adoção da IA generativa trará uma transformação profunda ou revolucionária para as operações tributárias. Essa visão reforça que a automação e a inteligência artificial vêm justamente para eliminar o que nunca deveria ser o foco do profissional tributário: a execução mecânica.
Elas devolvem tempo e energia mental para o que realmente importa; pensar, analisar, conectar e comunicar com clareza. Outro dado reforça essa visão: de acordo com a pesquisa EY Tax and Finance Operations 2024, 87% dos profissionais acreditam que a integração da IA generativa aumentará a eficiência e a eficácia das áreas de tax e finanças.
E é aí que o humano se torna ainda mais relevante, ao interpretar cenários, traduzir complexidades e alinhar decisões tributárias à estratégia do negócio.
O que mais me incomoda é a ideia de que técnica e criatividade são opostos. Na cerâmica, é o domínio da matéria, do barro, da temperatura, das reações químicas, que permite criar o inesperado. No tributário, é a mesma lógica: o domínio técnico é o alicerce; a criatividade, a centelha que transforma conhecimento em estratégia.
A verdadeira transformação não está apenas na tecnologia, mas na mente que a conduz. Profissionais que unem rigor e sensibilidade estão transformando o papel do tax nas empresas, de área de suporte para centro de inteligência e criação de valor.
Marília Soubhia é diretora tributária com mais de 20 anos de experiência. Formada em Direito e Filosofia, é membro do grupo “Mulheres no Conselho” e está cursando o Advanced Program for Board Members (ABPW) da Saint Paul, com conclusão prevista para 2026.
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