O Peso das Palavras
Na última semana, duas situações chamaram a atenção, e com mais impacto do que se imagina. Na Câmara Municipal de São Paulo, o vereador Adrilles Jorge utilizou uma peruca para ilustrar uma ideia simples: a aparência não influencia a compreensão da realidade de uma mulher.
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Dias antes, na Assembleia Legislativa, a deputada Fabiana Bolsonaro mudou a cor da pele e afirmou que a identificação como mulher negra não implica necessariamente ter vivenciado o racismo. Ambas as declarações apontam para um limite claro: a experiência não se improvisa, a dor não se ensaia e a vivência não se declara.
Fora desse contexto, a lógica muitas vezes parece óbvia, especialmente quando não nos afetamos diretamente. No entanto, existe uma exceção sutil, quase imperceptível. Ela surge quando confundimos “sabor” com ser. Existem barras de chocolate com “sabor” de chocolate que nunca tiveram cacau.
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Parece, lembra, engana, mas não é a realidade. Assim como na vida humana, as aparências podem ser enganosas. Muitos discursos carregam o sabor da verdade, sem jamais ter se conectado com a experiência real. E o que é curioso é que compramos essa “embalagem” com a mesma facilidade com que aceitamos uma etiqueta do figurino.
A ciência explica essa tendência através do “illusory truth effect” (efeito ilusório da verdade). Estudos da American Psychological Association mostram que a repetição torna uma ideia familiar, e, portanto, mais convincente, mesmo que seja falsa.
O que se repete se torna conhecido, e o conhecido se transforma em lar, mesmo quando esse lar é apertado, escuro e sem janela. É assim que um figurino se torna um fato, e uma mentira se transforma em convicção.
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Existem exemplos disso no cotidiano. Uma paciente, desde criança, ouvia da mãe: “Você é um lixo”. Outra, de um companheiro, ouvia: “Você é uma péssima mãe”. Também tive uma paciente que ouvia do chefe: “Você faz tudo errado”, mesmo pedindo ajuda para enviar um e-mail.
Essa contradição, apesar de não ser um cargo de alta responsabilidade, se intensificou. Sinto dizer, mas o que aconteceu não ficou no passado. A hesitação, a crença em erros, a necessidade de se esforçar mais, tudo isso retorna, influenciando o comportamento.
E o pior é quando a conquista é minimizada, vista como um mero detalhe. Imagine um dia de “céu de Brigadeiro”: azul, sem nuvens, um dia comum que não se recorda. O acerto vira obrigação, o erro se torna prova de fracasso.
Freud já observava que aquilo que não é elaborado retorna. Reaparece em comportamentos cíclicos e escolhas que nos ferem. Você olha sua vida e pensa: “É impressionante, parece que eu só me aproximo de pessoas que me fazem sentir um lixo”. Quase como algo cármico.
Mas não há nada espiritual nisso. É psicanálise: “Repetir, recordar e elaborar”. Continuamos repetindo enquanto não elaboramos esse caminho. Apenas reconhecendo a estrutura encontramos saídas diferentes no mesmo labirinto. Como aponta o filósofo Byung-Chul Han, vivemos em uma sociedade que nos empurra para uma autoexploração exaustiva, onde o cansaço não é apenas físico, mas um sintoma dessa repetição vazia que aceitamos como identidade.
