A apraxia da fala infantil, em que a fala é interrompida, requer intervenção

Tádzio FrançaRibeira A Apraxia da Fala Infantil (AFI) é um transtorno neurológico ainda pouco conhecido, porém que vem sendo diagnosticado com frequência crescente no Brasil e no mundo. O distúrbio impacta na capacidade das crianças em sequenciar os movimentos necessários à produção da fala. Segundo a Sociedade Brasileira de Apraxia, a condição afeta […]

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(Imagem de reprodução da internet).

Tâdzio França Ribeira

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A Apraxia da Fala Infantil (AFI) é um transtorno neurológico ainda pouco conhecido, porém diagnosticado com crescente frequência no Brasil e no mundo. O distúrbio impacta na capacidade das crianças em sequenciar os movimentos necessários à produção da fala. De acordo com a Sociedade Brasileira de Apraxia, a condição afeta duas crianças a cada mil no país. O diagnóstico, o planejamento terapêutico e o início das intervenções precoces são fundamentais para um prognóstico mais favorável.

A apraxia se caracteriza por falhas na precisão e na coerência dos movimentos articulatórios da fala. A otorrinolaringologista Camila Souza explica que os distúrbios nos movimentos da fala ocorrem apesar do paciente ter vontade e habilidade física e cognitiva para executá-los. “A criança pode ter um atraso inicial de fala, mas o que caracteriza realmente o quadro, é a inabilidade em sequenciar de forma fluente os movimentos de articulação dos fonemas, gerando uma fala pouco compreensível, com troca de sons e omissão de sílabas”, afirma.

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Camila ressalta que a fala apresenta grande variabilidade e os erros não seguem um padrão fixo (a fala pode ser diferente sempre que tenta), o que também diferencia essa condição de outras alterações de fala. Os pais devem observar os filhos que estão em fase de desenvolvimento da fala, pelo menos antes de um ano de idade.

A otorrino aponta certos indicadores de alerta, como a retardo no início da fala após os oito meses, visto que as primeiras palavras geralmente aparecem por volta de um ano; a omissão de sílabas, especialmente no início das palavras; erros e trocas de vogais; fala monótona, sem entonação, sem ritmo e sem melodia definidos; o uso preferencial de sílabas ou apenas de vogais para representar uma palavra; e a dificuldade da criança em relatar eventos de sua rotina ou recontar uma história. Aos três anos e meio, uma criança deve ter sua fala compreendida por um adulto que não a conheça.

O otorrinolaringologista que atua na área da foniatria é frequentemente o primeiro especialista a ser consultado por pais preocupados com atraso na fala. O diagnóstico da fala arrastada, ressalta Camila, deve observar crianças que compreendem bem as falas, mas não conseguem produzir palavras esperadas para a idade; apresenta inconsistência na produção dos sons; tem dificuldade com a transição de sons e ritmo da fala, e utiliza gestos para compensar.

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O diagnóstico é clínico. “Realizado por equipe multidisciplinar, otorrino juntamente com fonoaudióque aplica protocolos para exclusão de outros comprometimentos que justifiquem o quadro motor da fala”, enfatiza Camila Souza.

A apresentação de sintomas da Amniofibroma Infantil (AFI) frequentemente está relacionada a casos de Síndrome de Down, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e epilepsias, mas essa condição também pode se manifestar de forma isolada em crianças, sem a presença dessas características, por motivos ainda não compreendidos. “Estudos específicos têm demonstrado um componente genético em alguns casos de AFI, considerando também o histórico familiar”, completa.

Camila ressalta que a AFI é uma condição motora da fala, não se resolvendo espontaneamente, necessitando de uma abordagem específica e estruturada. A intervenção precoce – idealmente antes dos três anos de idade – é importante para a boa evolução do quadro, considerando que nessa idade a plasticidade cerebral favorece o reaprendizado dos padrões motores da fala.

Interdisciplinar

O otorrinolaringologista faz parte de uma abordagem de cuidados multidisciplinares que engloba fonoaudió(elemento central da reabilitação), neuropediatra (para investigação de causas relacionadas ou síndromes neurológicas), psicopedagogo (quando há impacto no aprendizado) e terapeuta ocupacional. A fonoaudióloga Liliana Câmara ressalta que é preciso considerar as dificuldades específicas de cada criança, para então ajustar essas necessidades à melhor abordagem terapêutica.

A frequência do tratamento varia conforme a intensidade das manifestações da AFI, podendo a criança necessitar de intervenções fonoaudiológicas de duas a cinco vezes por semana, dependendo desse grau. “Para um melhor prognóstico, devemos considerar a severidade da Apraxia, a existência de outras comorbidades, aspectos comportamentais e, principalmente, a motivação da criança com o processo terapêutico, o envolvimento da família, da escola e a abordagem aplicada pelo fonoaudió”, diz.

A família, os terapeutas e a equipe escolar precisam manter uma comunicação contínua para alcançar resultados positivos no desenvolvimento e na aprendizagem motora da fala da criança. “Cada criança tem suas características próprias, as orientações são e devem ser focadas nessa individualidade”, ressalta.

Na rotina com crianças, Liliana sugere que os pais utilizem uma comunicação clara, com frases curtas e objetivas, que incentivem a criança e a ajudem a compreender a importância das sessões de terapia. “A utilização da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) deve ser considerada, oferecendo uma alternativa para a comunicação, promovendo a inclusão e uma melhor qualidade de vida. Reforçam em casa o que foi estimulado durante as sessões”, complementa.

Desafios

A estudante de nutrição Luciana Guedes identificou que seu filho Lucas, então com dois anos de idade, não estava falando como outras crianças. A família passou mais dois anos acreditando que se tratava de autismo, até obter o diagnóstico de Apraxia da Fala, há apenas dois meses. “Até alcançar o diagnóstico definitivo, o problema era algo muito vago para nós. A família pode passar por grandes dificuldades durante esse processo”, afirma.

Lucas tem atualmente cinco anos. Em casa, ele é bem compreendido, o desafio ocorre na escola. Alguns colegas questionam por que ele não fala corretamente, ou por que não canta com eles. Ele tenta se expressar e não consegue, o que o faz se retrair. “Será uma luta que enfrentaremos bastante daqui para frente”, relata a mãe.

Desde o diagnóstico de AFI, o menino tem realizado sessões com fonoaudióde três a cinco vezes por semana, às vezes com acompanhamento em casa. “Estamos fazendo tudo o que é possível para ele se desenvolva e possa viver melhor em sociedade. Essa fase é muito importante”, afirma. O não tratamento da AFI pode acarretar dificuldades que persistirão na idade adulta.

Fonte por: Tribuna do Norte

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