Elza Salvatori Berquó falece aos cem anos em São Paulo

Elza Salvatori Berquó deixa legado histórico na análise demográfica do Brasil, defendendo direitos humanos até os cem anos.

17/07/2026 13:26

3 min

Elza Berquó se destacou na articulação de alguns dos centros de pesquisa mais importantes do continente
Elza Berquó se destacou na articulação de alguns dos centros de ...

A demógrafa Elza Salvatori Berquó faleceu nesta última quinta – feira, dia 16 de abril em São Paulo, aos cem anos.

Professora e cientista renomada por sua formação inicial como matemática, ela dedicou décadas da vida a analisar profundamente o Brasil através dos dados censitários e do estudo populacional. Sua trajetória foi fundamental para entender as transformações urbanas que moldaram nosso país entre os períodos das décadas de 1960 até o ano 2000.

Contribuições acadêmicas na ciência brasileira

Elza se destacou pela articulação científica de alguns centros cruciais no continente americano, essenciais tanto para compreender o desenvolvimento brasileiro quanto suas dinâmicas demográficas internas. Ela estudou inicialmente em Guaxupé (MG) e fez sua graduação em matemática na Universidade Católica de Campinas.

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Sua formação avançada incluiu um mestrado em estatística obtido na USP — Universidade de São Paulo—, concluído ainda em 1949. No mesmo período seguinte, ela especializou – se em bioestatística nos Estados Unidos da Columbia University. Em 1965, foi quando seu trabalho ganhou notoriedade ao analisar detalhadamente a evolução populacional paulista com base nas informações dos censos realizados entre os anos de 1940 e 1950, atuando pela Faculdade de Saúde Pública da própria USP.

Defesa política por direitos reprodutivos

Além do rigor acadêmico que sempre pautou sua vida profissional, Elza Berquó manteve um forte compromisso político visível na defesa intransigente dos Direitos Humanos no Brasil. Ela dedicava – se à discussão pública sobre o acesso aos métodos contraceptivos, além de defender conscientemente tanto o aborto quanto outros aspectos relacionados a saúde reprodutiva para toda população brasileira.

A cientista também discutiu com grande persistência e método científico problemas complexos como altas taxas históricas de mortalidade infantil em diversas regiões do país. Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, ressaltou essa dualidade ao comentar que “ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”.

Construção institucional na demografia nacional

O impacto profissional dela se estendeu à criação ou participação no desenvolvimento de instituições vitais: foi cofundadora importante do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), um feito realizado logo após a ditadura militar — ano seguinte aos seus trabalhos iniciais —, junto a intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti.

Em 1995, ela fundou também a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento. Este órgão federal passou a assessorar o governo em decisões estratégicas sobre políticas populacionais brasileiras. A trajetória acadêmica da demógrafa garantiu que seu legado fosse mantido vivo; Elza Berquó foi uma das responsáveis pela criação do Núcleo de Estudos de População (Nepo – Unicamp), instituição cujo nome leva sua homenagem desde 2014.

Homenagens ao longo dos cem anos. O reconhecimento por parte de colegas resumiu um papel quase maternal na área no país, como afirmou Eduardo Rios Neto. Ele declarou categoricamente que “Elza é a mãe da demografia brasileira”, destacando o desenvolvimento institucional em áreas relevantes e citando ABEP, NEPO e CNPD entre elas.

A cientista social Gláucia Marcondes comentou sobre seu falecimento dizendo ser uma mulher fantástica; mas também celebrou suas conquistas passadas — as pessoas formadas e os centros criados —, marcando sua passagem pela ciência.

O legado para políticas públicas

Richarlls Martins, presidente atual do órgão federal de assessoria à tomada de decisões estratégicas no campo populacional (CNPD), enfatizou que Elza Berquó acreditava profundamente na capacidade brasileira. Ele apontou o papel pioneiro da primeira presidenta da CNPD em contribuir com a ampliação dos direitos humanos universais.

Seu trabalho foi um pilar constante por toda vida dedicada ao estudo demográfico até completar seus cem anos; defendendo sempre uma democracia sustentada pelas evidências científicas e pela melhoria das políticas públicas.

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