Raízen busca recuperação judicial por R65 bilhões; tendência cresce no Brasil

Raízen enfrenta crise bilionária: busca recuperação judicial reflete aumento preocupante nas dívidas corporativas brasileiras.

06/07/2026 11:40

4 min

Prédios corporativos na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo
Prédios corporativos na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Pa...

O pedido de recuperação extrajudicial da gigante multinacional Raízen— que envolve dívidas na casa dos R 65,1 bilhões em um cenário movimentado no mercado brasileiro em 2026 —, sinaliza uma tendência crescente entre as grandes corporações do país.

Longe de ser apenas o caso dessa empresa líder em açúcar e etanol, diversos setores estão buscando negociar suas obrigações com credores fora das cortes judiciais brasileiras. Esse movimento ocorre após anos marcados por juros considerados punitivos para muitas empresas nacionais.

Aumento nas negociações: O caminho sem tribunais

Segundo dados levantados pelo Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), a busca por acordos privados está acelerada no Brasil. Os pedidos saltaram significativamente — passando de 16 registros somente em 2021 para impressionantes 84 casos no ano passado inteiro.

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Esse fenômeno abrange uma vasta gama econômica, envolvendo desde mineração e indústria até varejo, logística e agronegócio. Até o momento deste ano, já foram registradas as solicitações das reestruturações extrajudiciais por parte de mais 33 empresas diferentes.

A alta taxa básica de juros do país – que se encontra atualmente em 14,25% ao ano – impôs um grande fardo financeiro a muitas companhias brasileiras nesse período.

O mecanismo legal como alternativa viável

Os executivos apontam para dois fatores principais: tanto os altos custos dos empréstimos contraídos durante a pandemia — quando a Selic atingiu seu mínimo histórico de apenas 2% anuais —, quanto uma reforma estrutural. Juliana Biolchi, diretora do Obre, afirma que houve “uma mudança cultural” no setor devido às atualizações feitas na legislação desde 2020.

Essa atualização tornou as reestruturações extrajudiciais mais flexíveis e atraentes aos olhos das empresas em dificuldade financeira. Luiz Fabiano Saragiotto, sócio da Journey Capital, explica ainda que o mecanismo incentiva negociações antecipadas com credores selecionados antes mesmo de ser necessário entrar diretamente nos tribunais.

Ele ressalta a complexidade dos processos judiciais: “envolvem todos os credores, afetando a reputação da companhia e o acesso às linhas de crédito”, alertou Saragiotto sobre receber um “carimbo maldito” ao ter seu pedido deferido judicialmente.

Como funciona uma reestruturação extrajudicial

Em termos práticos, este tipo de acordo permite à empresa negociar dívidas em grupos específicos. Uma vez aprovado por maioria simples entre esses setores creditórios definidos no plano inicial, ele se torna vinculativo para todas as classes envolvidas.

Essa simplicidade processual fez com que Biolchi afirmasse ser cada vez mais associada a crises financeiras menos graves do que os processos judiciais tradicionais.

Casos recentes e o impacto setorial. O mecanismo ganhou grande visibilidade recentemente: foi possível ver casos como Casas Bahia obtendo aprovação judicial na reestruturação extrajudicial avaliada em cerca de R 4,1 bilhões ainda em 2024. O acordo não afetou fornecedores ou funcionários da rede varejista naquele momento.

A onda continuou forte no setor comercial nos anos seguintes; também houve um caso relevante com Tok Stok (em 2024). Mais adiante neste ano, por exemplo, a empresa do grupo GPA solicitou formalmente permissão para reorganizar uma dívida estimada perto dos R 4,5 bilhões.

O uso desse processo se alastrou até o agronegócio e setores agrícolas que enfrentam alto endividamento na atualidade.

Visões de mercado sobre risco de crédito

Os números mostram claramente essa expansão: em comparação aos R 41,5 bilhões registrados apenas em 2024, estimativas apontaram um montante superior a R109 bilhões acumulado pelas empresas que pediram recuperação extrajudicial somente neste ano (em 2026.

Os mercados financeiros têm sentido esse impacto crescente no nível corporativo do Brasil. Caio Viggiano, managing director da área de renda fixa do banco Itaú BBA, observou o aumento das preocupações dos investidores com relação ao risco de crédito.

Próximos passos e setores sob análise

Os especialistas acreditam firmemente que essa tendência não vai diminuir nos próximos meses; espera – se ainda mais reestruturações desse tipo em diferentes segmentos econômicos. A Oncoclínicas — a maior empresa brasileira dedicada ao tratamento oncológico na América Latina —, por exemplo, está entre as companhias monitoradas pelo mercado como possíveis candidatas à negociação extrajudicial.

A companhia se recusou inclusive a comentar sobre qualquer discussão interna do tema neste momento.

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