Luiz Felipe Pondé desafia apocalipse da IA em debate no EXAME

Luiz Felipe Pondé desafia o apocalipse da IA em debate no EXAME. O filósofo questiona o medo tecnológico e a perda de controle

11/06/2026 08:37

4 min

Luiz Felipe Pondé desafia apocalipse da IA em debate no EXAME
(Imagem de reprodução da internet).

Inteligência Artificial: Uma Análise Filosófica Sobre o Bem-Estar Humano

A inteligência artificial (IA) emerge como uma força transformadora, com potencial para otimizar processos, impulsionar a produtividade e gerar riqueza. No entanto, a questão central reside em sua capacidade de oferecer uma resposta genuína para o bem-estar humano.

Essa discussão complexa foi abordada na palestra que encerrou o AI Summit EXAME, realizada em São Paulo, e traz à tona reflexões sobre desejo, controle, medo e os limites da ação técnica.

O filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, ao analisar o tema, situou a discussão dentro de uma tradição filosófica de cerca de 2.500 anos. Ele utilizou a tragédia grega “Prometeu Acorrentado”, atribuída a Ésquilo, como metáfora, onde Prometeu entrega o fogo aos homens, recebendo em troca a punição divina.

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O fogo, nesse contexto, representa a técnica, com seu potencial para o bem e para o mal, e a necessidade de cautela em relação ao seu uso.

Medo e Apocalipse Tecnológico

Pondé aproximou o medo contemporâneo da IA de outras visões apocalípticas sobre tecnologia, como a suspeita de que a humanidade possa perder o controle sobre aquilo que criou. Contudo, ele não compartilhou desse pânico, expressando sua opinião de que “eu, pessoalmente, não acho isso.

E eu não experimento nenhum sentimento apocalíptico com relação à inteligência artificial. Talvez por mera ignorância, mas eu não experimento”.

Visões Apocalípticas e Integradas

O filósofo distinguiu entre as visões “apocalípticas” e “integradas”, inspiradas nas ideias de Umberto Eco e Yuval Harari. Enquanto os apocalípticos, como Harari, temem a união entre IA e biotecnologia, capaz de gerar uma nova espécie, Pondé rejeitou esse receio.

Ele criticou a expectativa dos “integrados”, que acreditam que a tecnologia libertará o ser humano para realizar seus desejos e exercer a criatividade.

A IA e a Produtividade

Pondé argumentou que a IA está ligada à eficiência, à entrega de resultados e à reprodução do capital, citando o livro “Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han. Para ele, o critério decisivo para o avanço da inteligência artificial não é a promessa de felicidade, mas sua capacidade de gerar produtividade e riqueza.

Caso entregue valor econômico, a tecnologia será incorporada; caso contrário, “vai virar coisa de brinquedo, tipo game”.

Controle, Medida e a Felicidade

Ao discutir a felicidade, Pondé se afastou da ideia de bem-estar como satisfação imediata, retomando a tradição antiga, especialmente a grega e a romana, segundo a qual uma vida feliz depende de virtudes, medida e relação adequada com aquilo que não se controla.

A felicidade seria resultado de um esforço ao longo da existência, não de uma solução técnica pontual. Ele relacionou a discussão sobre felicidade à tradição epicurista, onde o prazer não significa submissão ao desejo, mas capacidade de não ser escravo dele.

Conclusão: A IA como Ferramenta, Não como Solução

Pondé também relacionou a discussão sobre felicidade à leitura cristã, que projeta a felicidade plena para depois da morte, e ao ensaio “Mal-estar na Civilização” de Freud, para quem a felicidade não parece fazer parte dos planos da criação e a natureza é indiferente ao sofrimento humano.

A felicidade, nessa linha, seria sempre episódica. A modernidade, observou Pondé, deslocou a felicidade para o campo do sentimento e do coração — algo que “se sente”.

Ao final, Pondé enfatizou que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta, não como solução para a felicidade humana. Ela pode ajudar uma pessoa a ganhar dinheiro, resolver problemas, apoiar diagnósticos de saúde, controlar dados e gerar resultados.

No entanto, também pode fazer empresas quebrarem e pessoas perderem o emprego. “A ideia de que, com a inteligência artificial, a gente vai passar a ser outra humanidade é uma ideia que a gente deve evitar, tanto no sentido negativo quanto no sentido positivo”, disse.

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