Melanoma contagioso atinge bagres em lago canadense

Melanoma contagioso assola bagres canadenses; cientistas investigam possível epidemia na água doce.

27/07/2026 19:02

4 min

Lago Memphremagog visto do sul
Lago Memphremagog visto do sul

Pescadores no Lago Memphremagog, localizado na fronteira internacional entre Vermont (EUA) e Quebec (Canadá), notaram um padrão incomum nos bagres– cabeça – marrom: eles começam aparecer cobertos por manchas negras e aveludadas.

Biólogos identificaram essas marcas como melanoma— uma forma rara de câncer nesses peixes —, mas os pesquisadores apontam para algo mais alarmante: trata – se do primeiro caso registrado mundialmente de um tumor cancerígeno contagioso que se espalha pela água doce.

A descoberta científica sobre o contágio

O estudo, publicado na revista Nature nesta última semana pelos cientistas da Universidade de Vermont, explica toda essa situação. Segundo as pesquisas, tudo começou com apenas um único bagre cujo desenvolvimento tumoral liberou células malignas diretamente no ambiente aquático.

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Esses detritos celulares passaram a infectar outros indivíduos das espécie em uma sequência descrita como “epidemia silenciosa”. A geneticista Julie Dragon foi quem liderou parte dessa investigação e não estava inicialmente buscando por câncer transmissível nesse tipo específico de peixe.

Em 2014, ela havia sido chamada pelo Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont para investigar o adoecimento dos exemplares do lago Memphremagog. As primeiras teorias levantadas — que incluíam exposição à luz ultravioleta ou poluição vinda de um aterro sanitário próximo —, acabaram sendo descartadas pelos pesquisadores.

Análise genética aponta a origem das células. A equipe analisando profundamente o DNA encontrado nos tumores obteve uma resposta surpreendente ao testar as amostras em comparação com os peixes portadoras.

Enquanto se esperava encontrar semelhanças genéticas entre as células cancerígenas e seus hospedeiros, o resultado apontou exatamente para o contrário. Todas essas células tumorais eram geneticamente parecidas consigo mesmas — não haviam ligação direta com nenhum dos animais que carregavam essa doença no momento da coleta de dados.

Comparativo global sobre cânceres transmissíveis

Embora a situação do bagre seja um evento inédito na água doce, cãnceres transmissores já foram documentados antes em outras espécies diversas ao redor do planeta.

Em casos como os cachorros (com Tumor Venéreo Transmissível Canino – CTVT), é possível rastrear uma origem única há milhares de anos; ou ainda nos demônios – da – tasmânia. Estes últimos sofreram por causa da Doença do Tumor Facial que se espalha durante brigas e quase levou o animal à extinção.

Nos moluscos — incluindo mexilhões e amêijoas —, cientistas identificaram desde 2015 a ocorrência de leucemia contagiosa, com registros em águas salinas no Atlântico, Pacífico e Europa.

A importância dos bagres na pesquisa. O caso específico encontrado pelos pesquisadores chama atenção globalmente porque é um câncer transmissível detectado pela primeira vez nesse tipo particular ambiente aquático. Até então, acreditava – se firmemente que essas células malignas só conseguiriam sobreviver fora do meio marinho.

Os especialistas sugerem como o contágio se propaga através da biologia reprodutiva natural desses peixes. Durante a época de desova, os indivíduos tendem a ficar aglomerados em águas rasas; esse comportamento facilita mordidas e arranhões mútuos, abrindo ferimentos ideais para entrada das células cancerígenas presentes na água.

Recomendações aos pescadores

A equipe liderada por Julie Dragon agora está mobilizada com um novo objetivo científico: verificar se este mesmo tipo de câncer atinge bagres que vivem outras regiões do nordeste dos Estados Unidos.

Por isso, biólogos pediram ajuda à comunidade pesqueira. Pescadores ou outros profissionais da área devem enviar fotos detalhadas e informações sobre o local caso encontrem peixes exibindo tumores negros incomuns no Lago Memphremagog.

Peter Emerson, também coautor do estudo vindo do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont, aconselhou cautela aos pescadores ao consumir qualquer exemplar portador desses sinais tumorais; embora não haja provas concretas de risco alimentar imediato.

Impacto na saúde humana

Até este momento, os pesquisadores afirmam que ainda não há indícios científicos apontando para a circulação desse tipo específico de câncer contagioso entre seres humanos. Contudo, Elizabeth Murchison, especialista em doenças cancerígenas transmissíveis da Universidade de Cambridge, ressaltou como essa descoberta reforça uma ideia mais ampla.

“O fenômeno pode surgir e se manifestar em praticamente qualquer espécie”, afirmou ela, sublinhando o potencial global do estudo realizado no Lago Memphremagog neste ano de 2026.

A história registra casos anteriores. Vale lembrar apenas um registro histórico que antecede esta matéria; ainda assim é relevante para a ciência entender os padrões naturais dos peixes na região. Em 1858, Henry David Thoreau descreveu seu diário sobre um bagre capturado no rio Assabet (Massachusetts), notando nela “uma espécie de lepra negra” cobrindo parte da cabeça.

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