Steven Levitsky avalia: postura tarifária brasileira é estratégica

O cientista político Steven Levitsky afirma que muitas das decisões comerciais de Donald Trump são meramente políticas. Para quem escreveu “Como as Democracias Morrem”, levanta – se a tese de que manter firme na posição adotada pelo governo Lula diante da pressão tarifária americana é um movimento correto e estratégico para o Brasil.
Em entrevista à EXAME, Levitsky argumenta que essa postura brasileira — única em toda América Latina – oferece maiores chances de sucesso comparado com qualquer tipo de capitulação perante os Estados Unidos. Segundo ele, países vizinhos tendem apenas a dar margem contínua às pressões externas dos EUA.
A incoerência das tarifas americanas
Levitsky questionou se a imposição por parte do então presidente Trump de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros foi realmente motivada pela política comercial ou mais pelo campo político interno americano. O especialista apontou para um episódio ocorrido ainda em agosto de 2025 no Brasil como exemplo dessa confusão: após o Judiciário tentar responsabilizar Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de Estado, foram impostos tarifários de até 50%.
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“É muito difícil encontrar qualquer racionalidade [comercial] nas decisões,” afirmou Levitsky na entrevista à EXAME.
A falta de estratégia coerente. O cientista destacou que a política comercial exterior dos Estados Unidos se mostra “confusa e bastante inepta”, mudando conforme os humores do presidente. Ele ressaltou ainda que não há uma linha econômica consistente no conjunto das ações realizadas pela administração Trump em relação ao comércio internacional.
Intervenções políticas versus o direito democrático
Levitsky analisou como as tentativas americanas de interferir nos processos eleitorais tendem mais vezes a ter um efeito contrário àquilo desejado pelo governo Donald Trump ou seus aliados políticos.
Como exemplo disso foi citado o Canadá, onde Mark Carney — então candidato centro – esquerda —, conseguiu ser eleito em março de 2025. Esse resultado ocorreu mesmo após declarações do presidente americano sugerindo que o país poderia se tornar o 51º estado dos Estados Unidos da América.
O Brasil resiste e desafia padrões internacionais
Para Levitsky, o caso brasileiro é singular na região latino – americana porque representa uma situação inédita: um confronto direto com os limites reais do poder estadunidense sem qualquer recuo por parte do governo Lula.
“Não acho que Trump tenha compreendido totalmente com quem estava se metendo no Brasil,” avaliou ele em relação à resistência nacional brasileira. O especialista argumentou ainda que a postura de não ceder às sanções americanas funciona como estratégia dissuasiva contra futuras intimidações comerciais.
O futuro das relações EUA e América Latina
Levitsky observou o histórico intervencionista dos Estados Unidos, comparando – o até mesmo ao período anterior à Primeira Guerra Mundial, quando as grandes potências exploravam estados mais fracos sem seguir uma ordem internacional baseada por regras.
“Minha esperança é que possamos restaurar essa ordem,” disse Levitsky em um momento reflexivo sobre os desafios globais. No entanto, ele alertou para a dificuldade de se manter esse ideal enquanto Trump estiver no poder ou influenciando geopoliticamente regiões como Cuba ou Irã.
Autor(a):
Redação ZéNewsAi
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