Wilde enfrenta processo por escândalo envolvendo champagnes no St Jamess

A vida e a obra do escritor Oscar Wilde foram marcadas por um espetáculo público que culminou em sua ruína legal na virada do século XIX para o XX.
O início desse declínio foi marcado pelo escândalo social no teatro St Jamess, em Londres, já nos dias antecedentes ao julgamento formal. A partir de 14 de fevereiro de 1895, ele se viu envolvido numa crise midiática onde seu estilo de viver — sinônimo de ostentação intelectual— seria usado contra ele pela promotoria judicialmente.
Escandalo inicial: O pepino e a farsa vitoriana
A primeira faísca surgiu durante uma noite que ocorreu no palco do teatró St James’s na mesma data (14/02/1895). Lá estava o empregado Lane justificando publicamente aos presentes em relação à ausência de legumes para Lady Bracknell. Seu patrão era Algernon Moncrieff; este havia consumido todos os 12 sanduíches de pepinos encomendados, mas foi o criado quem assumiu toda culpa por não haver “pepinos no mercado esta manhã”.
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Enquanto plateia lotava a estreia da peça A Importância de Ser Fiel, rindo dessa farsa socialmente construída, um incidente ocorreu do lado externo ao teatro que escalou tudo: Marquês de Queensberry tentou arremessar contra o autor com um buquê cheio de vegetais.
O interrogatório e condenação em Londres
Esse evento público deu início à crise. Em menos de dois meses após os fatos iniciais, Wilde processaria formalmente o marquês pela acusação de difamação; essa ação foi quem iniciou sua própria destruição jurídica e financeira no sistema vitoriano.
Em 3 de abril de 1895, ele compareceu perante testemunhas do tribunal para responder a uma série detalhada de perguntas sobre seus hábitos pessoais ao advogado da promotoria. O questionamento cobriu desde suas contas hoteleiras até detalhes dos jantares e nomes das pessoas com quem havia se relacionado na vida privada.
Durante esse interrogatório intenso, quando perguntado qual era seu refrigerante preferido, Wilde respondeu: “Champanhe gelado, mesmo terminantemente contra as ordens do meu médico”. A réplica veio logo depois por parte do defensor que disse não dever “se importar com as ordens do [seu] médico”.
A ruína financeira em Paris
O gasto excessivo de prazeres foi usado pela promotoria como prova cabal para o crime. Em maio daquele ano, Oscar Wildel recebeu a condenação e passou dois anos preso; essa humilhação pública fez circular inúmeras histórias sobre sua vida privada.
Mesmo encarcerado, ele teria conseguido enviar uma caixa completa de champagne Perrier – Jouët, pertencente à safra 1874 — um fato cuja veracidade é questionada por críticos especializados na revista World of Fine Wine. Ele também faria questão que seu último desejo fosse apenas “PJ”.
Revisão histórica: A verdade além das lendas
A própria morte do escritor sofreu o mesmo tratamento lendário. Muitos textos contam a cena em que Wilde passava seus últimos dias “tomando champanhe no leito de morte”. Ao ouvir esses rumores sobre sua partida iminente, ele teria mantido bom humor e brincado com uma frase como: “Estou morrendo acima das minhas posses.”
Merlin Holland, executor literário responsável pelo espólio — neto direto de Oscar Wildel —, dedicou quarenta anos para editar as cartas completas; também montou essa transcrição integral dos acontecimentos relacionados ao julgamento de 1895.
Em seu livro After Oscar, o autor cataloga tudo que jornalistas ou biógrafos inventaram em nome do escritor. Ele corrigiu inclusive a história da morte por sífilis apontando os prontuários médicos na direção oposta e indicando meningite como causa real: “Tanta coisa após sua morte foi inventada”, afirmou Merlin Holland no The New York Times, dizendo sentir uma injustiça histórica com ele.
O legado literário
“De Profundis”, longa carta escrita para Lord Alfred Douglas — amante de Wilde e figura central nos processos judiciais —, detalha não apenas seu sofrimento emocional mas também o colapso financeiro.
Nela, Wildel relata ter gasto “mais de cinco mil libras em dinheiro vivo” somente com os prazeres cotidianos. Após a prisão que durou dois anos, seus planos eram se restabelecer junto à família; contudo, sua esposa levou os filhos ao exterior mudando até mesmo sobrenome deles. Ele tentaria viver incógnito cruzando o canal da Mancha, passando últimos tempos por Paris sob um pseudônimo: Sebastian Melmoth.
O fim e as últimas palavras
Em seu período mais simples após deixar festas luxuosas, ele seguia uma rotina modesta na cidade francesa — pão, manteiga e café às 11 horas ou costeleta com ovos cozidos regados a conhaque Courvoisier no almoço. Morreu aos 46 anos em condições de extrema privação.
Autor(a):
Redação ZéNewsAi
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